A trajetória da Virgem Maria

 

Por Wesley José da Silva

Comunidade Rhema Araxá/MG

 

“No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré,  a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria” (Lc 1, 26-27). 

 

Antes que o Verbo se encarnasse, Maria já era, por sua correspondência aos dons divinos, cheia de graça. A graça recebida por Maria torna-a grata a Deus e a prepara para ser a Mãe virginal do Salvador. Integralmente possuída pela graça de Deus, pôde dar o seu livre consentimento ao anúncio da sua vocação (cf. CIC, 490).

 

“Assim, dando o seu consentimento à palavra de Deus, Maria tornou-se Mãe de Jesus. E aceitando de todo o coração, sem que nenhum pecado a retivesse, a vontade divina da salvação, entregou-se totalmente à pessoa e à obra do seu Filho para servir, na dependência d'Ele e com Ele, pela graça de Deus, o mistério da redenção” (CIC, 494).

 

“Naqueles dias, Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre’” (Lc 1,39-42).

 

“(...) encontro com Isabel, onde a mesma voz de Maria e a presença de Cristo no seu ventre fazem ‘saltar de alegria’ João (cf. Lc 1,44). Inundada de alegria é a cena de Belém, onde o nascimento do Deus-Menino, o Salvador do mundo, é cantado pelos anjos e anunciado aos pastores precisamente como ‘uma grande alegria’ (Lc 2,10)” (Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae do Sumo Pontífice São João Paulo II ao Episcopado, ao Clero e aos Fiéis sobre o Rosário).

 

Maria saiu de sua casa física e moveu-se à montanha da Judeia para visitar Isabel. Isabel, para acolher a Maria, saiu de si mesma e reconheceu, na mulher que a visitava, a Mãe do seu Senhor. Maria acolhera a palavra do Anjo sobre a sua prima e foi visitá-la como a alguém abençoado por Deus.

 

“E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,1-7). “Chamada nos evangelhos ‘a Mãe de Jesus’ (Jo 2,1; 19,25), Maria é aclamada, sob o impulso do Espírito Santo e desde antes do nascimento do seu Filho, como ‘a Mãe do meu Senhor’ (Lc 1,43). Com efeito, Aquele que Ela concebeu como homem por obra do Espírito Santo, e que Se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne, não é outro senão o Filho eterno do Pai, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja confessa que Maria é, verdadeiramente, Mãe de Deus (“Theotokos”) (C.I.C., 495).

 

“Jesus é o filho único de Maria. Mas a maternidade espiritual de Maria estende-se a todos os homens que Ele veio salvar: ‘Ela deu à luz um Filho que Deus estabeleceu como “primogênito de muitos irmãos" (Rm  8,29), isto é, dos fiéis para cuja geração e educação Ela coopera com amor de mãe” (C.I.C., 501).

 

“Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no (Jesus ) a Jerusalém para O apresentar ao Senhor, conforme o que está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor; e para oferecerem o sacrifício prescrito pela lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc 2, 21-24). “A apresentação no templo, de fato, enquanto exprime a alegria da consagração e extasia o velho Simeão, registra também a profecia do ‘sinal de contradição’ que o Menino será para Israel e da espada que trespassará a alma da Mãe (cf. Lc 2,34-35)” (Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae do Sumo Pontífice São João Paulo II ao Episcopado, ao Clero e aos Fiéis sobre o Rosário).

 

“Nesta cena evangélica revela-se o mistério do Filho da Virgem, o consagrado do Pai, que veio ao mundo para cumprir fielmente a sua vontade (cf. Hb 10,5-7). Simeão indica-o como ‘luz para iluminar as nações’ (Lc 2,32) e anuncia com palavra profética a sua oferta suprema a Deus e a sua vitória final (cf. Lc 2,32-35). É o encontro dos dois Testamentos, Antigo e Novo. Jesus entra no antigo templo, Ele que é o novo Templo de Deus: vem visitar o seu povo, obedecendo à Lei e inaugurando os tempos últimos da salvação” (Homilia do Papa Emérito Bento XVI em 2 de fevereiro de 2011).

 

O sofrimento de Maria – a espada que trespassará a sua alma – terá como único motivo as dores do Filho e a incerteza do momento em que tudo isso aconteceria, logo o destino de Maria está traçado sobre o de Jesus, em função dele e sem outra razão de ser.

 

Desde o começo, a vida de Jesus e a de sua Mãe estão “marcadas pela Cruz”. Maria sabia desde os primeiros momentos a dor que a esperava, pois à alegria do nascimento sobrepuseram-se imediatamente a privação e a angústia e, quando chegou a hora de Seu Filho, contemplou Sua paixão e morte sem um protesto, sem uma queixa, sofrendo como nenhuma mãe é capaz de sofrer, aceitando a dor com serenidade, porque conhecia o seu sentido redentor.

 

“Assim avançou a Virgem pelo caminho da fé, mantendo fielmente a união com seu Filho até à Cruz. Junto desta esteve, não sem desígnio de Deus (cf. Jo19,25), padecendo acerbamente com o seu Filho único, e associando-se com coração de mãe ao Seu sacrifício, consentindo com amor na imolação da vítima que d'Ela nascera; (...)” (Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja).

 

“Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem (...). Três dias depois o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos os que o ouviam estavam maravilhados da sabedoria de suas respostas” (Lc 2,41-47).

 

“O reencontro de Jesus no templo é  o único acontecimento que quebra o silêncio dos evangelhos sobre os anos ocultos de Jesus. (...) ‘Não sabíeis que Eu tenho de estar na casa do meu Pai? Maria e José ‘não compreenderam’ esta palavra, mas acolheram-na na fé, e Maria ‘guardava no coração todas estas recordações’, ao longo dos anos em que Jesus permaneceu oculto no silêncio duma vida normal” (C.I.C., 534).

 

“Ó Maria, vós chorais por terdes perdido vosso Filho uns poucos dias. Afastou-se Ele da vossa vida, mas não do vosso coração. Não vos lembrais que o amor tão puro com que O amais, O faz estreitamente unido convosco? Vós bem sabeis que quem ama a Deus, não pode deixar de ser amado de Deus, que diz: ‘Ego diligentes me diligo — Eu amo os que me amam’ (Pr 8,17). Por que, pois, temeis? Por que chorais? Deixai que eu chore, que tantas vezes e por minha culpa tenho perdido meu Deus, expulsando-O da minha alma (...) (trecho da Oração de Santo Afonso Maria de Ligório).

 

Santo Irineu diz: "obedecendo, Ela tornou-se causa de salvação, para si e para todo o gênero humano", ao que Padres complementam nas suas pregações, que "o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, desatou-o a Virgem Maria com a sua fé"; e, por comparação com Eva, chamam Maria a "Mãe dos vivos" e afirmam muitas vezes: "a morte veio por Eva, a vida veio por Maria".

 

Quando me encontro em angústia, eu me recordo do que a Palavra diz sobre a angústia de Maria ao longo de sua vida com o Cristo, porque ainda que ela tenha vivido a alegria imensurável de ser a Mãe do Filho de Deus, ela não foi poupada das responsabilidades de mãe tampouco das dores de uma e da máxima dor, a de perder um filho. E a mim, infinitamente distante de ser como foi Maria, resta recorrer a Ela para que sua intercessão me ampare, a fim de que eu viva minhas angústias num silêncio orante, operante e confiante de que em tudo Deus tem um propósito e que é assim também que eu me aproximo de quem ela foi.

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